A expressão “a casa caiu”, embora popular e de origem associada à gíria carioca, é amplamente utilizada para indicar o fracasso de planos articulados nos bastidores, sobretudo aqueles sustentados por práticas questionáveis. E, numa analogia direta ao atual cenário político envolvendo o presidenciável Flávio Bolsonaro, o ditado parece encaixar-se perfeitamente.
Não é de hoje que o senador consegue atravessar turbulências políticas e jurídicas praticamente ileso. Contudo, chega um momento em que até os mais habilidosos operadores da política acabam alcançados pelas próprias contradições. E, quando isso ocorre, os estilhaços inevitavelmente atingem aliados, apoiadores e até setores próximos do núcleo de poder.
No estado do Rio de Janeiro, infelizmente, escândalos políticos já parecem ter se tornado parte da paisagem institucional. Basta recordar que diversos ex-governadores acabaram presos ou investigados por corrupção e práticas incompatíveis com a ética pública. O caso atual, entretanto, ganha contornos ainda mais delicados por envolver diretamente a família Bolsonaro, que construiu sua trajetória política sustentada no discurso moralista e no combate ostensivo à corrupção.
O episódio das joias oriundas dos Emirados Árabes já havia provocado desgaste relevante. Agora, novos fatos ampliam a percepção de incoerência entre o discurso e a prática. E a história mostra que, quando denúncias envolvem dinheiro, privilégios e possíveis esquemas de poder, a reação popular tende a ser ainda mais severa.
Como paralelo histórico, é impossível não lembrar da apreensão de milhões de reais ligados ao grupo político de Roseana Sarney, em 2002, episódio que inviabilizou sua candidatura presidencial naquele momento. Na política, há escândalos que podem ser administrados; outros, porém, deixam marcas irreversíveis.
Diante de toda essa conjuntura, o desgaste parece evidente. Pesquisas recentes já indicam oscilações negativas na popularidade do campo bolsonarista, refletindo o impacto político da crise. O episódio reforça a percepção de que a radicalização e a polarização extremada pouco contribuem para o amadurecimento democrático e para os reais interesses da população brasileira.
Ao final, permanece a pergunta que ainda ecoa nos bastidores da política nacional: quem, de fato, financiará os próximos capítulos dessa longa narrativa de poder, influência e escândalos?
Por Juvenil Coelho*
*O autor é analista político e diretor do Instituto Phoenix de Pesquisa.
