Supõe-se que a vinda do “Messias brasileiro”, tão alardeada pela mídia, não tenha passado de uma grande encenação no cenário político do Congresso Nacional. Na mais absoluta verdade, a montagem do palco e o roteiro escolhidos para a deflagração da traição ao chefe da Advocacia-Geral da União já vinham sendo costurados há bastante tempo nos bastidores da República. Contudo, o martelo foi batido apenas na véspera do evento, justamente para que não houvesse tempo hábil, nem articulação política suficiente, para uma reação do Poder Executivo, principal interessado na eleição vitoriosa daquele que seria o mais novo integrante da Suprema Corte.
Convenhamos que nenhuma obra humana é perfeita. Assim, a engrenagem da cilada começou a apresentar rachaduras antes mesmo da consumação do ato político. Os encontros discretos entre caciques da direita e alguns operadores estratégicos do alto escalão da esquerda já indicavam que algo extraordinário estava sendo arquitetado longe dos holofotes oficiais. Até então, a Presidência da República sequer desconfiava da profundidade da conspiração que se desenhava nos corredores do poder.
Mas foi no flagrante sussurro do chefe da Casa Civil aos ouvidos do presidente do Senado que os mais atentos espectadores perceberam, por meio de leitura labial, a emblemática resposta: “oito”. Como nenhum crime político é perfeito, aquela pequena expressão acabou se transformando na chave-mestra para decifrar a armadilha montada pelos nobres senadores. Em poucos minutos, os rumores tomaram conta das redes sociais, dos gabinetes e dos bastidores da imprensa nacional.
Fazendo uma analogia bíblica, o episódio lembrou o beijo de Judas Iscariotes em Jesus Cristo, durante a Santa Ceia, conforme descrevem as Escrituras Sagradas. Não pela grandiosidade espiritual dos envolvidos, evidentemente, mas pela simbologia da traição silenciosa, consumada justamente entre aqueles que aparentavam lealdade e confiança mútua.
Tão certo quanto dois mais dois são quatro, momentos depois confirmou-se aquilo que muitos já suspeitavam. O painel eletrônico do Senado revelou, de forma explícita, o placar de 42 votos contrários e 34 favoráveis, enterrando de vez a candidatura e as pretensões do chamado “confiável Messias de Dilma”. Um homem que, gostem ou não de sua trajetória política, sempre buscou transmitir a imagem de equilíbrio, preparo técnico e compromisso institucional.
Diga-se de passagem que o episódio deixou marcas profundas não apenas na biografia política do derrotado, mas também na credibilidade das instituições republicanas. Afinal, quando interesses ocultos se sobrepõem aos debates transparentes e às convicções públicas, instala-se no imaginário popular a sensação de que as grandes decisões nacionais são tomadas longe dos olhos do povo e muito próximas das conveniências das elites políticas.
A verdade é que o episódio expôs, mais uma vez, a fragilidade das alianças ideológicas no Brasil contemporâneo.
No tabuleiro político nacional, antigas rivalidades são facilmente esquecidas quando projetos de poder e interesses estratégicos entram em cena. Não existem amigos permanentes, tampouco inimigos definitivos; existem apenas conveniências momentâneas que se reorganizam conforme a direção dos ventos de Brasília.
Consequentemente, quando toda a manobra veio à tona, os rumores passaram a apontar para uma ruptura institucional cada vez mais profunda em nossa já desgastada República. Os excrementos das sórdidas negociatas começam a vazar pelas frestas dos altos gabinetes do Planalto, revelando ao cidadão comum que a política brasileira continua refém de acordos silenciosos, traições calculadas e interesses inconfessáveis. Enquanto isso, o povo segue assistindo perplexo ao espetáculo da própria descrença nacional.
Por Juvenil Coelho*
* Juvenil Coelho é jornalista e articulista político, escrevendo artigos de opinião para sites de notícias.



